começara a perder a visão periférica. tinha de mover a cabeça ora para a esquerda ora para a direita, para poder cobrir visualmente o espaço que dantes fazia sem qualquer movimento. tudo isto com enormes dores que pareciam querer esmagar memórias passadas e matar à nascença planos futuros. diagnosticada a morte por processos absolutamente científicos, passou a soldado, em guerra radioativa contra o invasor que lhe ocupou espaço no cérebro e ameaçava conquistas maiores e devastadoras até à vitória final. morreria na quarta-feira. não havia rendição possível que lhe permitisse a continuação no campo de batalha. restava-lhe construir a imortalidade numa floresta de livros.
Laura percebia agora todo aquele aparato na biblioteca. um conceito de verticalidade literária que permitia o crescimento de cada autor. passava a não existir a limitação horizontal da prateleira. o céu era o destino, e a morrer, caso morte houvesse, seria como as árvores. de pé.
o decifrador de futuros chamou-a. hesitei em explicar aqui a razão . se fosse para uma despedida, limitaria eu próprio a escrita deste livro. por outro lado o leitor, voltando atrás, reencontra-o no seu total esplendor. não se trata portanto de uma despedida.
- Laura, isto não é uma despedida…
disse então ele, a meu mando. queria somente que Laura se perdesse no labirinto daquela floresta. que se sentasse à sombra de uma azinheira de Jonas Biliūnas, e o lesse. queria que apreciasse um poema de Balys Sruoga. queria que sentisse o perfume da acácia de Kazys Boruta. queria que colhesse um livro da árvore de Marcelijus Martinaitis e o levasse por uns dias, dormisse com ele e, se a vontade lhe viesse, fizesse amor com ele até as páginas desfalecerem de prazer. queria que plantasse árvores de livros pelo mundo e as alimentasse dando de beber aos autores sedentos de glória.
o decifrador de futuros falava assim com restos de brilho parados nos olhos, ainda autorizados a enxergar. Laura, sem brilho nos olhos, parada, ouvindo-o num prolongamento de corpo conseguido pela sua mão que desmandada agarrou com força a mão do bibliotecário. parecia querer agarrá-lo à vida, numa última tentativa de enganar a morte e retirá-lo daquele campo de batalha, já ferido, mas sobrevivente de uma guerra que lhe rebentou por dentro. sem avisar. cuspindo-lhe pequenas bombas no cérebro, cegando-o aos bocados. era segunda-feira e Laura passou o resto de dia com ele. ajudou-o a plantar as últimas árvores e ele, quase cego, guiou-a pela floresta sem esbarrar num único livro. contando-lhe histórias e páginas de lembranças que ela arquivou no seu cérebro ainda incólume a guerras e escarros da morte. era segunda-feira, sentaram-se numa clareira de árvores de poetas e esperaram calmamente que a anunciada chegasse. na quarta-feira.
- Laura, isto não é uma despedia…
NOTA: Jonas Biliūnas, Balys Sruoga,Kazys Boruta e Marcelijus Martinaitis são importantes escritores lituanos.
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