gostava de passear
pelas margens do Neris. tinha mesmo a sensação que o Neris era Deus. encontrava-o
tantas vezes. estava ao mesmo tempo em tantos lados. em tantas e tão diversas
localidades, serpenteando-se por entre florestas que, embora falhando, tentavam
mudar-lhe os humores e os sentidos. o Neris era para o alquimista das palavras o
refúgio. deixava pousar os olhos na lentidão do seu curso e navegavam
calmamente como barcos de papel cheios de desejos dentro. os olhos, como velas
acesas, procurando destinos. os olhos como caravelas, procurando portos
seguros, onde pudessem desembarcar e morrer.
havia noites em que
os olhos encontravam a lua. não através de uma visualização direta do céu, mas
porque ela, a lua, se despia, e assim nua, pousava na água. viva. enleando-se. ondulando-se
na corrente que o Neris lhe oferecia só para a ver dançar. e os olhos e a lua,
e a lua e os olhos, ficavam-se para ali a namorar. os olhos corriam atrás da
lua e ela desaparecia nas profundezas da água, mergulhando numa nuvem do céu. depois
com os olhos já cansados, a lua aparecia lá longe, perto da outra margem, ou
atravessando a sombra da ponte que se estendia para a deixar passar.
no início da
primavera, o Neris enchia-se de flores brancas e frias, desenhadas na
correnteza pelo sol. era o degelo. o alquimista das palavras entretinha-se a
deixar os olhos saraquitar em volta de cada uma delas, identificando formas,
esculpindo pensamentos. sempre lhe pareceu que os olhos funcionavam como uma
extensão da alma. era por isso que as mesmas alvas formas, vistas pelos olhos
dos outros, nos seus, tanto podiam ser monstros ou princesas. cavalos,
elefantes ou leões. Vénus, Neptuno ou Marte. unicórnios, centauros ou
minotauros. todos imaculadamente brancos. por vezes deleitavam-se em danças de
ventre. beijavam-se, faziam amor e os gemidos ecoavam nos montículos moribundos
de neve suja, que se acumulavam nos passeios marginais. outras, guerras
titânicas, sons estridentes, gritos lancinantes, afloravam às margens em
pedaços cortantes, que rasgavam os montículos moribundos de neve que se
acumulavam nos passeios marginais.
o rio contava-lhe
histórias, com palavras feitas de água. Pegava nelas com as mãos em concha e
deixava-as esgueirar por entre as linhas entreabertas, nas junções dos dedos.
demoradamente. às vezes fechava as mãos com força como se estivesse a agarrar a
vida, ou a morte. com força. e as palavras feitas de água esgueiravam-se, não só
por entre as linhas, nas junções, mas também pelo canal formado por todos
aqueles dedos que agarravam a vida, ou a morte. sabia que era a morte, quando
as mãos gelavam, depois de meia dúzia de histórias e a carne se arroxeava por
debaixo das unhas. gostava de passear pelas margens do Neris. conhecia-las. podia
fazê-lo de olhos fechados. sempre que a lua não vinha ou quando o Neris
desaparecia sobre uma camada espessa de gelo que transformava todo o rio numa
margem só. a ponte deixava de ter sentido. só mesmo para a lua que,
provocatoriamente, continuava a usar a sua sombra para deslizar. e os olhos e a
lua, e a lua e os olhos ficavam-se por ali a namorar .