22.5.12

vinte e nove


gostava de passear pelas margens do Neris. tinha mesmo a sensação que o Neris era Deus. encontrava-o tantas vezes. estava ao mesmo tempo em tantos lados. em tantas e tão diversas localidades, serpenteando-se por entre florestas que, embora falhando, tentavam mudar-lhe os humores e os sentidos. o Neris era para o alquimista das palavras o refúgio. deixava pousar os olhos na lentidão do seu curso e navegavam calmamente como barcos de papel cheios de desejos dentro. os olhos, como velas acesas, procurando destinos. os olhos como caravelas, procurando portos seguros, onde pudessem desembarcar e morrer.
havia noites em que os olhos encontravam a lua. não através de uma visualização direta do céu, mas porque ela, a lua, se despia, e assim nua, pousava na água. viva. enleando-se. ondulando-se na corrente que o Neris lhe oferecia só para a ver dançar. e os olhos e a lua, e a lua e os olhos, ficavam-se para ali a namorar. os olhos corriam atrás da lua e ela desaparecia nas profundezas da água, mergulhando numa nuvem do céu. depois com os olhos já cansados, a lua aparecia lá longe, perto da outra margem, ou atravessando a sombra da ponte que se estendia para a deixar passar.
no início da primavera, o Neris enchia-se de flores brancas e frias, desenhadas na correnteza pelo sol. era o degelo. o alquimista das palavras entretinha-se a deixar os olhos saraquitar em volta de cada uma delas, identificando formas, esculpindo pensamentos. sempre lhe pareceu que os olhos funcionavam como uma extensão da alma. era por isso que as mesmas alvas formas, vistas pelos olhos dos outros, nos seus, tanto podiam ser monstros ou princesas. cavalos, elefantes ou leões. Vénus, Neptuno ou Marte. unicórnios, centauros ou minotauros. todos imaculadamente brancos. por vezes deleitavam-se em danças de ventre. beijavam-se, faziam amor e os gemidos ecoavam nos montículos moribundos de neve suja, que se acumulavam nos passeios marginais. outras, guerras titânicas, sons estridentes, gritos lancinantes, afloravam às margens em pedaços cortantes, que rasgavam os montículos moribundos de neve que se acumulavam nos passeios marginais.
o rio contava-lhe histórias, com palavras feitas de água. Pegava nelas com as mãos em concha e deixava-as esgueirar por entre as linhas entreabertas, nas junções dos dedos. demoradamente. às vezes fechava as mãos com força como se estivesse a agarrar a vida, ou a morte. com força. e as palavras feitas de água esgueiravam-se, não só por entre as linhas, nas junções, mas também pelo canal formado por todos aqueles dedos que agarravam a vida, ou a morte. sabia que era a morte, quando as mãos gelavam, depois de meia dúzia de histórias e a carne se arroxeava por debaixo das unhas. gostava de passear pelas margens do Neris. conhecia-las. podia fazê-lo de olhos fechados. sempre que a lua não vinha ou quando o Neris desaparecia sobre uma camada espessa de gelo que transformava todo o rio numa margem só. a ponte deixava de ter sentido. só mesmo para a lua que, provocatoriamente, continuava a usar a sua sombra para deslizar. e os olhos e a lua, e a lua e os olhos ficavam-se por ali a namorar .                         

17.4.12

vinte e oito

a noite era povoada por criaturas que nasciam nos dias. depois cresciam assustadoramente nos sonhos. fantasmagóricas, apoquentavam cada pedaço de Laura. começavam pela alma, riscavam-na com desenhos ameaçadores, com lápis de ponta fina e penduravam-na em precipícios da vida. depois os pés. devorados por bocas enormes de monstros escuros cobertos de pelos e penas. tinham-na avisado para não dormir com os pés descalços fora da roupa. era quando eles apareciam. todos aqueles monstros desenhados na sua infância. achava que os tinha enterrado, mas não. iam aparecendo de vez em quando e deixavam marcas na sua pele que só desapareciam quando as primeiras gotas de sol lhe aconchegavam o corpo. apareciam e cansavam-lhe os sonhos, tornando as noites em campos de batalhas de seres retirados dos filmes que colecionava nas prateleiras da memória. naquela noite sonhou com as caixas dos desejos, há muito enterrada no seu jardim de tulipas. viu-se lá. cumprindo o ritual. lua nova. sete desejos. sete caixas, como matrioskas,que iam cabendo umas dentro das outras. a mais pequena com o mais pequeno desejo, até à maior com o desejo impossível. faltava pouco. sete anos de escuridão debaixo da terra deixavam os desejos ansiosos por se realizarem. ansiosos por voltarem a ver a luz do dia ou então morrer para sempre como se não tivessem nascido. como se tivessem vivido sete anos numa sétima dimensão, enterrados na terra e nas vontades de Laura. faltava pouco para ela os poder libertar, da terra e da alma. cada um devidamente arrumado em cada caixa. escritos com as lágrimas de cada um dos sete dias da semana. era o ritual. devia chorar sete dias seguidos. foi há muito tempo. Laura teve a sua semana com sete dias de lágrimas. lágrimas de dor, de pena, de ódio, de raiva, de desespero, de medo, de amor. lágrimas diferentes, sete, de sete dias seguidos, guardadas em sete pequenos frascos. depois em cada um deles, o desejar metido, soprando o desejo. um depois do outro, depois do outro, depois do outro.... cada um guardado em cada frasco, depois em cada caixa, do mais pequeno para o maior, até ao impossível. naquela noite de cansaços violentos em que lhe voltaram a aparecer todas as figuras fantasmagóricas de infância, lá estavam as caixas já apodrecidas, comidas por vermes de sete cabeças e sorrisos que assustavam. estavam quase a findar os sete anos. chegava em breve a noite de lua nova com sete estrelas no céu. era a noite dos sete desejos de Laura.